MAPA DO SITE :: ENGLISH VERSION
spira
Opinião

 

A GESTÃO TURÍSTICA DO PATRIMÓNIO

Na qualidade de turistas, somos frequentemente confrontados com a impossibilidade de visitar edifícios e equipamentos com um cunho patrimonial. Autarquias e Estado degladiam-se com a atribuição de responsabilidades mútuas quando, regra geral, o problema é apenas um: a impossibilidade económica e de know-how de ser o Estado ou as Autarquias a assegurarem a totalidade desses serviços.

Parece-nos que a chave para a resolução deste crónico e, cada vez mais, premente problema passa pelo estabelecimento de parcerias de exploração público-privadas.

Como se desenvolve um modelo de gestão para um recurso patrimonial na componente turística?

A primeira questão que se coloca é a da possibilidade do tráfego existente para esse mesmo recurso poder ser transformado em receitas. Há que avaliar se essa quantidade de tráfego gera as receitas suficientes para poder manter um serviço de atendimento ao público em funcionamento. Depois desta primeira avaliação estritamente económica e centrada na capacidade directa do recurso patrimonial gerar dividendos, dever-se-á equacionar outros retornos indirectos da exploração turística desse mesmo recurso – sendo os dois mais significativos a promoção do desenvolvimento sócio-económico local e a conservação do monumento. Por fim, é necessário ter em conta a importância artística ou histórica do referido monumento na escala nacional – assim poderemos atribuir diferentes graus de responsabilidade a uma ou mais entidades na gestão do recurso. É a avaliação da totalidade destes elementos que permitirá definir o modelo de gestão adequado para o património em causa.

Vejamos o caso de uma igreja: falamos de uma igreja, de âmbito rural, propriedade da Igreja Católica que abre ao culto apenas em dias de missa ou por motivo de celebração excepcional. Uma igreja com um valor patrimonial à escala regional. Como é sabido, não se pode taxar a entrada num edifício religioso, apenas se pode cobrar serviços associados tais como uma visita guiada ou a possibilidade de conhecer um espólio concreto – é o caso dos Tesouros, por exemplo.

É pois nesta componente de serviços que reside a chave para a auto-sustentabilidade da gestão turística deste recurso. Qual o modo correcto de promover esses serviços? Se o tráfego de visitantes fosse suficiente, seria possível ter o edifício permanentemente aberto. Mas na generalidade dos recursos patrimoniais de Portugal, sobretudo de âmbito rural ou do interior do país, não existe essa quantidade mínima de visitantes. Assim, há que ser realista e desenvolver uma solução adequada à expectativa de receitas a gerar: um técnico apto a fazer visitas por marcação ou sempre que solicitado por visitantes no local (caso a afluência seja significativa, poder-se-á elaborar um horário de realização de visitas diárias) de forma a que seja possível rentabilizar os momentos do técnico sem visitantes para outras actividades úteis à entidade empregadora. Ou ainda, reunir um conjunto de edifícios com carga patrimonial e afectar esse mesmo técnico, nos moldes acima descritos, ao conjunto desses edifícios.

Uma parceria entre autarquia, proprietários privados (colectivos ou singulares) e Estado revelar-se-ia imprescindível, sendo que todos contribuiriam na eventual parcela da remuneração do técnico não coberta pelas receitas das visitas. Esta parcela pública ou de benfeitores deveria ser progressivamente substituída ou minimizada pelas contribuições de todos aqueles que beneficiassem directamente da existência do serviço de visitas: alojamento, restauração e comércio local integrado ou promovido através do circuito.

De facto, estamos em crer que a impossibilidade de, em âmbito rural, ter os edifícios abertos permanentemente pode transformar-se numa oportunidade através, justamente, do desenvolvimento de serviços turísticos de qualidade, e pagos em consonância.

O interior tem também actualmente um outro tipo de património muito procurado: falamos dos Centros Interpretativos propriedade do Estado ou dos Municípios. Estes poderiam igualmente assumir o mesmo figurino, mas desta feita e tendo presente o facto de serem  recursos situados em locais ermos, com a presença de 2 técnicos: um de guardaria, outro guia  de visitas no mesmo regime descrito para a igreja.

O sucesso destes serviços poderia justificar, a médio prazo, a concessão dos mesmos a empresas de animação turística vocacionadas e treinadas para o efeito.

O princípio da gestão patrimonial em nosso entender deve ser, em primeiro lugar, um princípio de negócio puro, ou seja, as receitas devem cobrir os custos. Evidentemente que a carga cultural deste bem permite-lhe ver adicionado, quando necessário, contribuições financeiras quer por parte do

Estado, dos municípios ou ainda de mecenas que ajudam a colmatar eventuais dificuldades financeiras de início de exploração, pontuais ou decorrentes de um enquadramento excepcional impossibilitador de gerar mais receitas.

Mas esta contribuição deve ser sempre vista como um último recurso e não como a base da exploração turística dos recursos patrimoniais. Tendo presente o modus operandi da gestão patrimonial em Portugal, estaríamos a falar de uma profunda mas absolutamente necessária mudança de paradigma. Sob pena de tudo continuar fechado ou a cair.

"Catarina Valença Gonçalves, publicado na Revista Alentejo Terra Mãe de  Julho de 2008"

Desenvolvido por Sistemas do Futuro